Há uma diferença importante entre saber que uma dívida existe e entender o que ela custa. O Brasil convive há anos com desequilíbrio fiscal estrutural, mas os números mais recentes tornam difícil continuar tratando o assunto como problema de médio prazo. A dívida bruta do governo geral atingiu 82,9% do PIB em setembro de 2026, segundo dados do Banco Central divulgados em 29 de outubro. Em dezembro de 2022, na série atual, estava em 71,7%: uma alta de 11,2 pontos do PIB em menos de 4 anos.
O déficit nominal acumulado em 12 meses ficou em 9,51% do PIB em setembro, depois de chegar a 9,99% em junho, o nível mais alto desde abril de 2021, ainda na pandemia. O que compõe esse déficit nominal merece atenção. Quase todo ele vem do custo de carregar a própria dívida: só em juros, o setor público acumulou o equivalente a 8,99% do PIB nos 12 meses até setembro de 2026, ante 7,86% um ano antes. É um mecanismo que se retroalimenta.
Quanto maior a dívida, maior o serviço. Quanto maior o serviço, maior o déficit. Quanto maior o déficit, mais dívida se acumula. Esse ciclo define o tamanho de qualquer tentativa de ajuste fiscal. Cortar gasto primário é necessário, mas o esforço exigido depende diretamente dos juros, que hoje consomem quase um décimo de tudo que o país produz. A Instituição Fiscal Independente estimou, em seu relatório de outubro, que seria necessário um superávit primário de 2,1% do PIB para estabilizar a relação entre dívida e PIB, considerando juro real de 5% ao ano.
Com juro real de 6,1%, a exigência sobe para 2,9%. Nos 12 meses até setembro, o resultado primário foi um déficit de 0,52% do PIB. A distância entre os pontos, de 2,6 a 3,4 pontos do PIB, define a dimensão do esforço necessário. O debate sobre onde cortar costuma se concentrar na composição política do ajuste. Mas há uma dimensão anterior a essa: parte do gasto obrigatório nasce nos tribunais. Segundo o CNJ, as novas ações contra o INSS passaram de 2,20 milhões em 2021 para 3,98 milhões em 2025.
Nem toda ação termina em derrota do governo, mas as que terminam criam despesa decidida caso a caso, sem passar pela deliberação pública do orçamento. Para quem investe no Brasil, essa aritmética importa de forma direta. Com a Selic em 13,75% ao ano e a dívida pública crescendo, o governo compete com o setor privado pelo mesmo conjunto de recursos disponíveis no mercado. Crédito mais caro, prazo mais curto e prêmio de risco mais alto são consequências naturais desse ambiente.
Sem uma trajetória fiscal crível, a tendência é que os juros longos permaneçam elevados por mais tempo, comprimindo o valor presente de ativos de risco e encarecendo financiamentos de longo prazo no país.