Todo processo eleitoral tem um custo fiscal. Mas o Brasil desenvolveu uma habilidade particular: a de anunciar despesas durante a campanha sem reservar espaço no orçamento para pagá-las. O resultado aparece depois, na forma de projeções de déficit que surpreendem, embora não devessem surpreender mais. A Instituição Fiscal Independente, órgão técnico ligado ao Senado Federal, publicou ontem um relatório calculando em R$ 40 bilhões o custo de medidas anunciadas ao longo da campanha e não previstas na proposta orçamentária enviada ao Congresso em agosto.
A conta soma a recomposição inflacionária do Bolsa Família, a renúncia de receita com a proibição das apostas esportivas e o pacote de benefícios para microempreendedores individuais. Com esse desequilíbrio embutido, o déficit primário potencial de 2027 pode alcançar 1% do Produto Interno Bruto, quando seria necessário um superávit de 2,1% do PIB para ao menos estabilizar a dívida pública. O esforço de ajuste implicado aí é de cerca de 3 pontos percentuais do PIB, número que poucos governos conseguiriam implementar em condições políticas normais, e que este governo não demonstrou disposição de tentar.
O pano de fundo é conhecido, mas não perde gravidade por isso. A dívida pública bruta brasileira deve encerrar 2026 próxima de 82,5% do PIB, segundo projeções do IFI. Essa trajetória coloca o Brasil entre os países emergentes com endividamento mais acelerado do mundo. O problema central, porém, não é só o tamanho da dívida: é o custo de carregá-la. O Brasil consome algo em torno de 8% do PIB apenas no pagamento de juros anuais, proporção que supera a de quase todos os países do planeta, independentemente do nível de endividamento.
Esse paradoxo tem raiz estrutural. O orçamento brasileiro é fortemente indexado: despesas obrigatórias crescem automaticamente acima da inflação por força de regras constitucionais e legais, deixando ao gestor fiscal uma margem mínima de manobra. Quando novos compromissos são empilhados sobre essa base já rígida, sem contrapartida de receita ou corte equivalente, o déficit cresce por inércia. A implicação para o ambiente de investimentos no Brasil é direta.
Quanto maior e mais incerta a trajetória fiscal, maior tende a ser o prêmio de risco exigido pelos credores, o que pressiona para cima as taxas de juros de longo prazo.