A França virou, nas últimas semanas, um laboratório do que acontece quando um país promete mais do que consegue bancar. O que começou com estudantes protestando contra salas lotadas e escolas deterioradas se espalhou para atos contra o custo de vida e a piora dos serviços públicos, com confrontos em várias cidades. Na maior jornada, 256 mil pessoas foram às ruas, segundo o Ministério do Interior. O problema é que o pedido chega a um Estado sem fôlego.
A dívida pública francesa bateu 119% do produto interno bruto, recorde histórico, e o déficit deste ano deve ficar em 5,4%, quase o dobro do teto de 3% da União Europeia. Para tentar voltar a 5% em 2027, o governo apresentou um ajuste de 54 bilhões de euros, com congelamento de salários do funcionalismo e aumento de impostos. Enquanto isso, só o custo da dívida deve chegar a 91 bilhões de euros em 2027. É aqui que mora a armadilha.
A população pede mais Estado justamente no momento em que o Estado tem menos dinheiro. O governo que corta enfrenta a rua. O que não corta enfrenta o mercado, que cobra juros maiores. O Parlamento francês já derrubou dois antecessores do atual primeiro-ministro por tentarem ajustar as contas, e o orçamento de 2027 segue em debate sob ameaça de nova queda. O Brasil conhece esse filme, só que com outro roteiro. Nossa dívida é menor, mas muito mais cara.
A dívida bruta chegou a 82,9% do produto interno bruto em agosto, o maior nível em 5 anos, segundo o Banco Central. Em 12 meses, só os juros consumiram R$ 1,18 trilhão, o equivalente a 8,86% de tudo o que o país produz. As projeções do mercado, reunidas pelo Banco Central, apontam a dívida em 95,1% do produto interno bruto em 2030. A pressão social aqui também não para. Ela aparece menos na forma de barricada e mais na forma de projeto de lei: aposentadoria especial para categorias, isenções, gastos retirados do limite do arcabouço fiscal.
Só a proposta de aposentadoria dos agentes comunitários de saúde pautada no Senado neste ano custaria R$ 30 bilhões à Previdência em 10 anos. Cada demanda, isolada, parece justa. Somadas, formam uma conta que ninguém quer assinar. A lição da França é que o ajuste adiado não desaparece. Ele volta maior, mais caro e em pior momento, geralmente quando a paciência da população já acabou. Quanto mais tempo se empurra, menor o espaço para escolher o que cortar e maior a chance de o corte vir pela inflação ou pelos juros, que são os impostos que ninguém vota.
Para quem investe, esse cenário tem tradução direta. País com conta fiscal frágil paga juro alto para se financiar, e esse juro remunera quem empresta ao governo. Mas o mesmo risco que eleva o retorno também aumenta a volatilidade do câmbio e dos preços dos títulos. Entender de que lado da conta você está é o primeiro passo para não ser surpreendido por ela.