A Ucrânia retomou ontem os ataques a refinarias russas, depois de uma pausa de apenas três dias. Em entrevista a um jornal britânico, o presidente ucraniano disse que a restrição tinha acabado, porque a Rússia seguiu bombardeando a infraestrutura de energia ucraniana durante todo o período em que Kiev esperava reciprocidade. Na madrugada de quarta-feira, um ataque russo deixou ao menos 600 mil pessoas sem eletricidade.
Na de quinta, segundo o próprio presidente ucraniano, mais de 850 drones russos atingiram 15 regiões, e 3 pessoas morreram em Kirovohrad, no centro do país. A trégua nunca foi formalizada: o governo americano anunciou o cessar-fogo energético no domingo, dia 11, e a Ucrânia suspendeu os ataques, mas a Rússia não aderiu. O pano de fundo é um acordo anunciado no dia 9 pelo qual a Rússia passaria a fornecer diesel aos Estados Unidos, com o argumento de baratear o combustível no mercado americano.
O problema é que o preço do diesel americano chegou a 6,53 dólares por galão na semana de 21 de setembro, o maior nível registrado pela agência americana de informações de energia desde o início da série, em 1994, e ainda estava em 6,18 dólares na semana de 12 de outubro. A causa principal não é a Ucrânia: é o choque de oferta provocado pela guerra com o Irã, iniciada no fim de fevereiro, que praticamente fechou o Estreito de Ormuz, por onde passava cerca de 20% do petróleo mundial.
Atribuir parte desse custo aos ataques ucranianos a refinarias russas parece fazer mais sentido como argumento político do que como análise econômica. Para a Ucrânia, o que mais pesa é o isolamento crescente. O estoque de mísseis interceptadores voltou a ficar curto, o governo americano ameaçou cortar o compartilhamento de inteligência e impôs limites ao acesso à internet por satélite usada pelos drones ucranianos, o que o presidente ucraniano trata como pressão deliberada.
O apoio americano oscila ao sabor do calendário eleitoral interno. A Europa ampliou o discurso de apoio, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, esteve em Kiev no início do mês dizendo que o momento é decisivo também para o futuro da Europa, mas a capacidade militar europeia ainda é bem inferior à americana. O conflito chega à economia brasileira por dois caminhos. O primeiro é o barril acima de 100 dólares, que beneficia o Brasil como exportador.
O petróleo bruto já era o principal produto da pauta antes da alta: em fevereiro de 2026 foi o item de maior valor exportado, num mês em que as exportações totais cresceram 15,6% em relação ao ano anterior.