Há uma singularidade no segundo turno que se aproxima: o resultado do dia 25 de outubro tende a determinar não apenas quem ocupa o Palácio do Planalto a partir de 2027, mas também o destino de um processo judicial que está parado numa gaveta do Supremo Tribunal Federal esperando a apuração acabar. O ministro Kassio Nunes Marques, que acumula a presidência do Tribunal Superior Eleitoral com a função de relator da revisão criminal da condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, decidiu não tocar no processo antes do segundo turno.
A justificativa oficial é de que analisar a revisão durante a campanha poderia interferir na disputa entre o senador Flávio Bolsonaro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A pena em jogo é de 27 anos e três meses de prisão, resultado de condenação por envolvimento na trama golpista de 2022. Depois do segundo turno, o ministro pretende submeter o caso ao plenário da Corte, e não decidir sozinho. Antes disso, aguarda ainda a manifestação da Procuradoria-Geral da República sobre os novos argumentos da defesa, que questiona a cadeia de custódia das provas digitais.
A expectativa dentro da própria Corte é de que o parecer da Procuradoria seja contrário à revisão. O pano de fundo institucional é relevante: o Supremo opera hoje com dez ministros e uma cadeira vaga, após o Senado rejeitar a indicação feita pelo governo atual em abril de 2026. O próximo presidente que tomar posse em janeiro de 2027 tende a indicar três ministros entre 2028 e 2030, período em que Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes atingem 75 anos e saem compulsoriamente.
Isso significa que quem vencer no dia 25 molda a Corte por pelo menos uma geração. A economia já antecipou parte desse cenário. Após o primeiro turno, com Flávio Bolsonaro à frente com 47% dos votos contra 45,16% do atual presidente, o dólar caiu 4,12% em um único pregão, fechando em R$ 5,0022 no dia 5 de outubro, maior queda diária em mais de oito anos. No acumulado do ano até aquela data, o real já havia se valorizado 10,19% frente ao dólar, a terceira maior valorização anual desde 2010, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta.
A apreciação do real tem dois lados. Importações ficam mais baratas, o que ajuda a segurar a inflação e pode abrir espaço para mais um corte na taxa básica de juros antes do fim do ano, conforme a expectativa de mercado registrada em setembro. Por outro lado, exportadores de commodities recebem menos em reais por cada dólar embarcado, comprimindo margens em setores como agronegócio e mineração.