A menos de quatro semanas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, o cenário político americano vive uma inversão que poucos antecipavam há um ano. O partido que controla a Casa Branca, com maioria de 53 a 47 no Senado, enfrenta agora a perspectiva real de perder essa vantagem, e talvez também a Câmara dos Representantes. O que explica essa virada não é um rival mais forte, mas o desgaste do próprio campo.
A aprovação do presidente americano ficou em 32% na pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em 5 de outubro, repetindo o pior nível de sua carreira política, registrado em setembro. Em paralelo, 66% dos americanos avaliam que suas políticas pioraram as condições econômicas do país, segundo pesquisa da CNN. Esses números se traduzem em comportamento eleitoral concreto: entre 9% e 16% dos eleitores republicanos em estados como Texas, Ohio e Kansas dizem que pretendem votar no candidato democrata ao Senado, segundo levantamento do New York Times com o Siena College.
O Texas é o caso mais simbólico. Os democratas não vencem uma eleição para cargo estadual no Texas desde 1994, mas pesquisas recentes mostram o candidato democrata à frente, em disputa que o Cook Political Report já classifica como indefinida. No Ohio, o ex-senador democrata Sherrod Brown lidera com 49% contra 43%, segundo pesquisa da CNN divulgada em 8 de outubro. No Kansas, a disputa está empatada. A explicação é simples: quando o eleitor que levou um presidente ao poder começa a sentir no bolso as consequências das políticas que apoiou, a fidelidade partidária cede.
Tarifas que encareceram importações, conflito no Oriente Médio que pressionou combustíveis e inflação persistente formam o pano de fundo do descontentamento. Não é necessariamente uma virada ideológica. É uma conta que o eleitor está fazendo no mercado. Para o Brasil, o desfecho dessas eleições importa por um mecanismo direto. O dólar abriu outubro acima de R$ 5,20, recuou para perto de R$ 5,00 após o primeiro turno brasileiro e segue sensível ao que acontece nos dois lados do Atlântico.
Se os democratas assumirem as duas Casas e passarem a travar a agenda tarifária e os gastos da Casa Branca, a tendência é de dólar mais fraco no mundo, o que alivia o câmbio brasileiro e reduz a pressão importada sobre a inflação. Se ficarem com apenas uma delas, o Congresso dividido prolonga a incerteza sobre a política fiscal americana, o que tende a manter os juros americanos elevados por mais tempo, atraindo capital para os Estados Unidos e pressionando moedas emergentes.