O que está acontecendo nas ruas da França não é, no fundo, uma revolta estudantil. É o momento em que uma conta adiada por décadas finalmente chegou, e ninguém no governo sabe muito bem como pagá-la. Cerca de 400 dos 3.700 liceus do país foram fechados em 2 de outubro por ordem das prefeituras, depois que estudantes tomaram as ruas contra salas superlotadas, falta de professores e prédios deteriorados. Na maior jornada de protestos, 256 mil pessoas foram às ruas, segundo o Ministério do Interior, sendo 56 mil só em Paris.
Desde o início dos protestos, mais de 6.100 pessoas foram detidas, a maioria menores de idade. A narrativa de que é apenas uma questão de infraestrutura escolar não se sustenta por muito tempo. Por trás da revolta está uma crise fiscal: o governo de Sébastien Lecornu propõe um ajuste de 54 bilhões de euros para levar o déficit a 5% do PIB em 2027. Neste ano, o próprio governo projeta déficit de 5,4% do PIB, acima dos 5,1% de 2025, e a dívida pública chegou a 119% do PIB, recorde histórico.
O déficit está entre os mais altos da União Europeia, bem acima do teto de 3% do bloco. Pedir mais professores e banheiros reformados a um Estado nessa situação é exigir que alguém que mal paga o aluguel contrate um arquiteto. A França está presa em uma armadilha de dívida: os déficits seguem elevados enquanto os juros sobem mais rápido do que a capacidade do país de cortar gastos ou crescer. O governo prevê que o custo da dívida chegue a 91 bilhões de euros em 2027, alta de 15% sobre 2026.
Cortar é impossível sem conflito social. Gastar mais é impossível sem aprofundar o buraco. O governo fica imóvel entre dois precipícios. O ingrediente político torna tudo mais explosivo. Com a eleição presidencial de 2027 no horizonte, a agitação já virou parte da campanha, e partidos rivais usam os protestos para atacar a política econômica e social do governo. Investidores temem populismo fiscal e eventual contágio na zona do euro.
Para o Brasil, o mecanismo de transmissão passa pela Europa como bloco. As exportações brasileiras para a União Europeia cresceram 20% de janeiro a setembro de 2026, puxadas pela entrada provisória do acordo Mercosul-UE. Uma Europa politicamente travada, com juros mais altos e crescimento lento, tende a importar menos. Ao mesmo tempo, o real tem se sustentado pelo diferencial de juros, com a Selic em 13,75% ao ano e o mercado projetando câmbio de R$ 5,20 por dólar ao fim do ano.
Instabilidade fiscal europeia que eleve a aversão ao risco global pressiona o real para baixo, encarece importações e dificulta o trabalho do Banco Central de manter a inflação, hoje em 4,22% em 12 meses, dentro da meta.