O primeiro turno das eleições presidenciais entregou um resultado que o mercado financeiro já antecipava em parte, mas cujo tamanho ainda surpreendeu. Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos. O presidente Lula (PT) ficou com 45,16%, sua menor votação em primeiro turno desde 1998. A distância de 2,2 milhões de votos não é intransponível, mas exige uma virada expressiva até 25 de outubro, em menos de três semanas.
O problema não é só eleitoral. É também econômico. A Selic está em 13,75% ao ano depois do corte de setembro, e o Boletim Focus projeta 13,50% para o fim de 2026. O mercado espera o dólar a R$ 5,20 no fim do ano. A inflação acumulada em 12 meses até agosto ficou em 4,22%, acima do centro da meta de 3% e perto do teto de 4,5%. Para o ano fechado, o Focus projeta 5,01%, acima do teto. Esse conjunto não é catastrófico, mas tampouco é confortável.
A reação ao primeiro turno mostrou a sensibilidade do mercado ao cenário político. Na segunda-feira, o dólar caiu 4,12%, de R$ 5,22 para R$ 5,00, e o Ibovespa subiu 7,70%, a um recorde histórico. Esse movimento depende de expectativas que ainda podem mudar até o segundo turno. O que o mercado precifica não é apenas quem vai ganhar, mas qual será a margem de manobra fiscal do próximo governo. As emendas parlamentares pagas saltaram de R$ 107 bilhões no ciclo anterior para R$ 165,4 bilhões entre janeiro de 2023 e agosto de 2026, alta de 54%.
Isso transferiu poder real ao Congresso e encareceu qualquer agenda de ajuste. Quem ganhar em outubro herda um parlamento majoritariamente de centro-direita, com capacidade de aprovar ou bloquear reformas conforme sua conveniência. Isso limita tanto um ajuste fiscal quanto uma expansão de gastos. Para o investidor brasileiro, o mecanismo é direto: incerteza política eleva o prêmio de risco do país, o que pressiona o câmbio e dificulta a queda dos juros.
Com a Selic em 13,75%, o custo do capital já inibe investimentos produtivos de prazo mais longo, como infraestrutura e indústria. Uma sinalização clara sobre a política fiscal, qualquer que seja o vencedor, tende a ser o gatilho mais importante para o Banco Central seguir cortando os juros. Sem esse sinal, a inflação segue acima da meta e o crédito permanece caro por mais tempo.