A quatro dias do primeiro turno, o que deveria ser um período de silêncio institucional virou arena de decisões contraditórias, recursos cruzados e ofícios de protesto entre as mais altas cortes do país. O movimento é sintomático: o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral chegaram à reta decisiva da eleição em rota de colisão interna. Ministros estão derrubando decisões uns dos outros em sequência, e o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, formalizou ao presidente do Supremo, Edson Fachin, preocupação com o risco de "captura institucional do TSE".
Não é um ruído de bastidor. É a crise se tornando o próprio cenário. Os números mostram onde isso chega. Pesquisa Datafolha realizada entre os dias 22 e 23 de setembro de 2026, com 2.002 eleitores, aponta que a reprovação ao trabalho dos ministros do Supremo chegou a 47%, o pior nível desde o início da série histórica, em 2019. A aprovação caiu para 18%, empatando com o piso histórico registrado em dezembro daquele mesmo ano.
Levantamento da Futura, realizado entre 11 e 15 de setembro com 2.000 eleitores, chegou a 60,4% de desaprovação. São metodologias diferentes, mas a direção é a mesma: a corte perdeu respaldo de forma acelerada e consistente ao longo de 2026. Faz sentido perguntar se isso é apenas reflexo de polarização eleitoral, já que 69% dos eleitores do candidato de direita reprovam o tribunal, contra 24% dos eleitores do candidato do governo.
A resposta é que a polarização explica parte, mas não tudo. A mesma pesquisa Datafolha mostrou que 82% dos brasileiros consideram inaceitável que ministros tomem decisões que beneficiem ou prejudiquem candidatos durante o período eleitoral. Esse número atravessa campos políticos. É um julgamento sobre comportamento institucional, não sobre ideologia. O problema estrutural é que a eleição virou o mecanismo pelo qual a própria corte tende a resolver sua crise interna.
O próximo presidente poderá indicar até quatro ministros: a vaga aberta desde a saída de Luís Roberto Barroso e as três aposentadorias obrigatórias previstas até 2030. Com o Senado funcionando como instância de aprovação, o resultado de outubro vai redesenhar o tribunal nos próximos anos. Isso cria incentivos perversos: ministros com alinhamentos distintos passam a encarar a disputa presidencial como questão de sobrevivência institucional, o que contamina decisões que deveriam ser técnicas.
O custo dessa dinâmica tende a recair sobre a capacidade de governar do vencedor, qualquer que seja. Um Executivo que chega ao poder contestado judicialmente, mesmo que por movimentos sem sustentação de fundo, vai gastar capital político em disputas que deveriam estar resolvidas antes da posse. Uma agenda econômica ou fiscal relevante, que o Brasil tem pressa de enfrentar, precisará de estabilidade institucional para avançar.
Quando os árbitros estão brigando entre si, o jogo fica mais difícil para todo mundo.