Toda eleição carrega em si uma promessa implícita de recomeço. O eleitor vai às urnas com a expectativa de que a escolha certa no topo do governo mude o rumo das coisas. No Brasil de hoje, porém, vale perguntar com honestidade: o que, concretamente, uma eleição é capaz de resolver? O ponto de partida mais urgente é o fiscal. A dívida bruta do governo geral atingiu 81,9% do PIB em junho de 2026, o maior nível desde 2021.
O gasto com juros do setor público somou R$ 1,16 trilhão nos doze meses até junho, equivalente a 8,80% do PIB, um recorde. Mesmo com a Selic em 13,75% ao ano, depois de cinco cortes seguidos, o custo de carregar uma dívida desse tamanho segue enorme. O orçamento federal, nesse cenário, vira uma equação de soma zero: qualquer real que entra já está comprometido antes mesmo de existir. O espaço discricionário, aquele que permite a um governo fazer escolhas de fato, encolheu a ponto de tornar irrelevante parte do debate eleitoral sobre prioridades de gasto.
Mas o problema não é só aritmético. É também estrutural e político. O presidencialismo brasileiro exige que qualquer governo monte uma coalizão pós-eleitoral para aprovar projetos no Congresso, porque nenhum partido sozinho chega perto de maioria. A última vez que o partido de um presidente conquistou maioria sozinho na Câmara foi em 1986, quando o PMDB de José Sarney elegeu 260 dos 487 deputados, embalado pelo Plano Cruzado.
Desde então, governar passou a significar negociar permanentemente. O custo dessas negociações, ao longo dos anos, foi pago em fragmentação orçamentária, emendas parlamentares e perda de controle sobre a alocação de recursos. O orçamento deixou de ser um instrumento de política pública e virou moeda de troca. Somado a isso, o Judiciário passou a ocupar um espaço político que antes não era o seu. Decisões judiciais sobre saúde, benefícios e contratos públicos comprometem fatias crescentes do orçamento sem passar pelo crivo do Executivo ou do Legislativo.
O Tribunal de Contas da União (TCU) ampliou sua atuação em regulação e contratos a ponto de influenciar o desenho de políticas públicas. O resultado é um sistema em que o presidente eleito chega ao cargo com margens cada vez mais estreitas de ação. Nada disso significa paralisia total. Saúde, educação e assistência social segue entregando serviços à população independentemente do ciclo eleitoral. Reformas incrementais são possíveis e acontecem.
A democracia brasileira, agora em seu décimo processo eleitoral direto consecutivo para presidente desde a redemocratização, tem mostrado resiliência institucional real. O que as eleições não conseguem é criar, por si só, o ambiente de coordenação que falta. Para isso seria preciso um presidente disposto a montar coalizões coesas, um Congresso com incentivos para pensar além do mandato imediato e uma agenda fiscal que aceite sacrifícios de curto prazo em troca de sustentabilidade.
Utopia? Depende do que se cobra dos eleitos depois da posse.