Por décadas, o ensino superior funcionou como o elevador mais confiável da mobilidade social brasileira. Quem conseguia um diploma saía de um patamar de renda e chegava a outro. Essa lógica moldou gerações, políticas públicas e até escolhas eleitorais. Hoje, esse elevador ainda funciona, mas sobe menos andares do que antes, e a classe C, que mais apostou na promessa, foi a primeira a perceber. Os números confirmam o movimento.
Em 2012, quem tinha curso superior completo ganhava 152% a mais do que quem tinha de doze a quinze anos de estudo, ou seja, ensino médio completo ou faculdade interrompida no caminho. Em 2024, essa diferença caiu para 126%, uma redução de quase 26 pontos percentuais em doze anos, segundo levantamento de pesquisadores do instituto de economia da Fundação Getúlio Vargas. A queda aparece também em reais: o rendimento médio de quem tem curso superior recuou de R$ 7.495 em 2012 para R$ 6.619 em 2024, já descontada a inflação.
A explicação tem duas faces. A primeira é positiva: o número de trabalhadores com curso superior completo quase dobrou no período, de 12 milhões para 22,4 milhões de pessoas, saindo de 13,1% para 22% de todos os ocupados. Quando a oferta cresce nessa velocidade, o prêmio cai, é lei básica de mercado. A segunda face é mais incômoda: boa parte desse crescimento ocorreu em cursos ainda formatados para uma economia que já não existe.
O mercado de trabalho mudou mais rápido que os currículos, e o resultado é o descasamento entre o diploma obtido e a ocupação exercida. Fato é que a classe C, hoje cerca de 31% das famílias brasileiras, com renda domiciliar mensal entre R$ 3.400 e R$ 8.100, foi quem mais internalizou a promessa educacional como projeto de vida. Foi também quem mais sentiu a frustração quando a realidade não correspondeu à expectativa.
O jovem que se formou esperando saltar para uma faixa de renda bem acima da dos pais, e terminou perto dela, entendeu na prática que o diploma virou piso, não teto. O que preencheu esse vácuo foi a economia de aplicativos. Ser motorista, entregador ou produtor de conteúdo passou a representar, para muitos, uma alternativa concreta e imediata, com a vantagem do tempo próprio que nenhuma carteira de trabalho oferece. Talvez não se trate de empreendedorismo no sentido clássico, mas da adaptação a um mercado que mudou as regras sem avisar.
Apesar disso, não significa que estudar deixou de compensar. Em 2024, quem tinha curso superior ganhava em média R$ 6.619 por mês, contra R$ 2.548 de quem parou logo antes. Mais de quatro mil reais de diferença todo mês, a maior distância de renda que existe no mercado de trabalho brasileiro. O que mudou não foi o sinal, foi a inclinação da curva. O desafio agora é que quem formula políticas públicas de educação e trabalho tende a operar ainda dentro da lógica antiga: mais vagas em cursos convencionais, mais regulação de ocupações tradicionais.
A classe C, pragmática e sem fidelidade ideológica rígida, observa esse descompasso e vai compondo suas escolhas, inclusive eleitorais, a partir dele. O diploma segue valendo. Só não vale mais o que prometeram que valia.