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Marcel Lima

O mercado faz as contas antes do eleitor

29/08/2026 · 4 min de leitura
Escrito por Marcel Lima
Sócio e Assessor de investimentos da VALOR | XP. Atua com planejamento financeiro aliando a técnica aos objetivos individuais.
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Artigo em áudio · 4 min

A campanha eleitoral ganhou forma com o início do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão, e já nas primeiras horas ficou evidente que os dois principais candidatos apostam em narrativas distintas, mas igualmente defensivas. Um reivindica experiência e trajetória. O outro responde a crises e tenta projetar uma agenda positiva que ainda não ganhou contornos claros. O problema é que, enquanto o debate político orbita escândalos e contra-ataques, a economia real vai dando seus próprios sinais, e eles tendem a ser mais decisivos do que qualquer peça publicitária.

A dívida pública bruta fechou 2025 em 78,7% do produto interno bruto, o equivalente a R$ 10 trilhões, alta de 2,4 pontos percentuais em um ano, segundo o Banco Central. A conta dos juros acompanhou. O setor público gastou R$ 1,008 trilhão com juros nominais em 2025, algo em torno de 7,9% do produto interno bruto, a primeira vez que essa despesa supera um trilhão de reais em doze meses. Nos doze meses encerrados em maio deste ano, o número já era de R$ 1,111 trilhão, ou 8,5% do produto interno bruto.

A taxa básica de juros vem caindo desde março e está em 14% ao ano, depois de quatro cortes seguidos, mas o alívio é recente e não desfaz o efeito de um ciclo inteiro com a taxa em 15%, o maior patamar desde 2006. Com parte relevante da dívida corrigida pela taxa básica, o custo de carregamento continua consumindo caixa público e privado ao mesmo tempo. No setor produtivo, o reflexo aparece nas recuperações judiciais.

Em 2025 foram abertos 977 processos, alta de 5,5% sobre o ano anterior, envolvendo 2.466 empresas, um salto de 13% e o maior número desde o início da série, em 2016. A deterioração seguiu em 2026: em junho, 9,1 milhões de empresas estavam com o nome negativado, recorde, com R$ 232,9 bilhões em contas vencidas. Cerca de 95% delas são micro e pequenas empresas. Com crédito seletivo e juros que só agora começam a ceder, mais negócios chegam à justiça para renegociar dívidas antes de fechar as portas.

Esse pano de fundo importa para a disputa eleitoral por uma razão simples: o humor do eleitor que ainda não decidiu o voto tende a ser moldado menos pelo que ele assiste no programa eleitoral e mais pelo que sente no caixa do seu negócio ou na fatura do cartão. A percepção de que o modelo de crescimento via crédito chegou ao limite vai se cristalizando no cotidiano. Quando uma loja fecha no bairro ou o frete encarece, isso alcança o eleitor de uma forma que nenhum minuto de televisão consegue neutralizar.

Fato é que o mercado financeiro já processou boa parte desse cenário. Agentes econômicos que antes aguardavam em compasso de espera foram buscar interlocução com a oposição, não necessariamente por adesão ideológica, mas porque a aritmética fiscal do atual governo não entrega o que o mercado precisa ver: uma trajetória crível de estabilização da dívida. O corte de juros ajuda na margem, só que juro menor sem ajuste de gasto apenas adia a conta.

Quando um candidato diz publicamente que defende corte de gastos e privatizações, mesmo sem detalhes de equipe ou plano, isso já funciona como sinal suficiente para quem opera com horizonte de médio prazo. O risco para ambos os lados é subestimar o momento. Uma campanha que se restringe a apontar o erro do adversário não constrói confiança nos mercados nem nos indecisos.

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