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Marcel Lima

O Preço da Credibilidade

25/08/2026 · 4 min de leitura
Escrito por Marcel Lima
Sócio e Assessor de investimentos da VALOR | XP. Atua com planejamento financeiro aliando a técnica aos objetivos individuais.
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Artigo em áudio · 4 min

Há uma lógica simples que governa a política de poder: ameaça só funciona quando quem a faz tem capacidade de cumpri-la. O governo americano descobriu esse limite da forma mais inconveniente possível, anunciando ao mesmo tempo uma ofensiva econômica devastadora contra um inimigo histórico e uma guerra tarifária pesada contra um dos aliados mais próximos. O resultado prático foi uma exposição de fragilidade que nenhum discurso consegue disfarçar.

O pano de fundo fiscal diz muito. O rendimento dos títulos de 30 anos do governo americano chegou a 5,33% na semana passada, maior nível em 19 anos. Esse número, por si só, sintetiza o problema. Quando o custo de carregar a dívida de longo prazo sobe a esse patamar, o espaço para pressionar o mundo com sanções e tarifas encolhe. Gastar munição econômica exige força fiscal, e a força fiscal americana está sob pressão crescente dos próprios mercados.

No plano interno, o efeito é ainda mais imediato. A taxa média do financiamento imobiliário de 30 anos nos Estados Unidos fechou a semana passada em 6,65% ao ano, nível que paralisa compradores de primeira viagem e comprime o setor da construção. Esse número importa politicamente porque casa própria é um termômetro eleitoral fundamental na cultura americana. Quando o custo de comprar a casa sobe sem perspectiva de queda, o eleitor sente isso de forma visceral, bem antes de entender qualquer debate sobre política comercial.

A aprovação do presidente americano caiu para 33% em meados de agosto, o nível mais baixo de seu mandato atual, com 64% de reprovação. A guerra com o Irã ajuda a explicar a queda. Desde o fim de fevereiro, o tráfego pelo Estreito de Ormuz, por onde passava cerca de um quinto do petróleo mundial, praticamente parou. O galão de gasolina passou de quatro dólares, quase um dólar acima do preço de um ano atrás, e o custo de vida das famílias sentiu na hora.

Isso não é coincidência: é exatamente a equação que fragiliza qualquer ofensiva externa. Quem governa com aprovação em queda e inflação mordendo o eleitorado tem poder de fogo retórico, não poder de fogo real. A guerra tarifária com o Canadá é o exemplo mais claro. Washington impôs tarifa de 50% sobre cerca de 20 bilhões de dólares em produtos canadenses, e a resposta foi a suspensão das negociações e a promessa de retaliação equivalente, dólar por dólar, a partir de 8 de setembro, atingindo aço, laticínios, eletrodomésticos, máquinas agrícolas, papel e celulose e eletrônicos.

Tratar um parceiro histórico com o mesmo vocabulário agressivo reservado a adversários geopolíticos não gera vantagem negociadora, gera boicote espontâneo de consumidores e ressentimento que leva anos para se dissipar. O outro lado calculou a correlação de forças e concluiu que o custo de ceder é maior do que o de resistir. O que emerge desse quadro não é uma crise passageira de imagem, mas uma tensão estrutural. A credibilidade de uma potência econômica se constrói na consistência entre o que anuncia e o que entrega.

Quando os anúncios se acumulam mais rápido do que as entregas, o mercado começa a precificar o desconto. A prova veio no dia 19 de agosto: o Tesouro americano anunciou que vai mais que dobrar o tamanho das recompras de títulos longos, de 2 para no mínimo 4 bilhões de dólares por operação, a partir de 9 de setembro. O rendimento de 30 anos cedeu para 5,19% no mesmo dia. Foi alívio, não solução. Recompra melhora a liquidez do mercado, não resolve o déficit que produziu o problema.

Um governo que precisa comprar a própria dívida para segurar o custo dela não está em posição de ditar termos a ninguém.

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