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Marcel Lima

O peso invisível que todo brasileiro carrega

24/08/2026 · 4 min de leitura
Escrito por Marcel Lima
Sócio e Assessor de investimentos da VALOR | XP. Atua com planejamento financeiro aliando a técnica aos objetivos individuais.
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Artigo em áudio · 4 min

Há uma conta que o Brasil vem adiando há décadas, e ela aparece hoje em forma de juro alto, crédito escasso e empresas quebrando. A dívida pública bruta do país chegou a 81,9% do Produto Interno Bruto em junho de 2026, com R$ 10,8 trilhões em estoque, e segue subindo mês a mês. Só em 2025, os gastos com juros ultrapassaram R$ 1 trilhão, o equivalente a quase 8% do tamanho de toda a economia nacional. São números que não pertencem a nenhuma narrativa política: pertencem ao balanço da realidade.

Com a taxa básica de juros em 14% ao ano, qualquer empresa que precise se financiar no mercado privado paga substancialmente mais do que isso, somado o risco de crédito específico do tomador. O resultado prático é que o custo do dinheiro no Brasil tende a inviabilizar estratégias de crescimento em quase todos os setores. Quem se alavancou quando os juros estavam em patamar muito inferior, há poucos anos, descobre agora que o serviço dessa dívida consome margens que simplesmente não existem mais.

O mecanismo central desse problema é menos óbvio do que parece. O governo federal, ao financiar seus déficits no mercado doméstico, compete diretamente com famílias e empresas pelo mesmo estoque de poupança disponível no país, que já é historicamente pequeno. E compete oferecendo um título público que paga a taxa básica de juros tecnicamente sem risco de calote em moeda nacional, algo que nenhuma empresa consegue igualar.

O que sobra para o setor produtivo vai ficando mais raro, e o que é raro fica caro. É uma dinâmica simples, mas de consequências profundas. A história dessa dívida também desmente a ideia de que o problema é apenas recente. A dívida líquida brasileira estava perto de 60% da economia no fim de 2002, caiu de forma consistente até algo em torno de 30% em 2013, e desde então voltou a subir sem interrupção relevante, alcançando 68,5% em junho de 2026.

Ou seja, o país já provou que sabe reverter a trajetória quando decide fazê-lo, e depois devolveu todo o ganho conquistado em uma década. O problema agora é que a margem para continuar adiando essa conta vai diminuindo, enquanto o custo de carregá-la cresce de forma automática. Com a taxa básica em dois dígitos, cada ponto percentual a mais nos juros adiciona sozinho dezenas de bilhões ao estoque da dívida ao longo de um ano, sem que nenhuma decisão de gasto novo precise ser tomada.

Estabilizar essa trajetória exigiria um superávit primário perto de 2% da economia, quando o país acumula em doze meses um déficit de R$ 157,2 bilhões, ou 1,19% do que produz. É um esforço de mais de três pontos percentuais, a ser feito sem crescimento mais robusto, sem reformas estruturais consistentes e num ambiente de elevada incerteza tributária. Isso vai muito além do calendário eleitoral. A conta existe. E ela cobra.

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