O pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia, com R$ 17,3 bilhões em dívidas, não é um episódio isolado. É o retrato mais visível de uma equação que o varejo brasileiro vinha tentando ignorar há anos: juro alto, família endividada e consumo que se sustenta artificialmente até o momento em que não se sustenta mais. A taxa de juros básica da economia está em 14% ao ano, definida pelo Comitê de Política Monetária no dia 5 de agosto de 2026.
Pode parecer que os juros estão em queda, e tecnicamente estão. Mas o ponto de partida foi tão alto que mesmo o recuo não alivia o suficiente o custo do crédito para empresas que operam com margens estreitas e dependem de financiamento constante para girar estoque, pagar fornecedores e rolar dívidas já contratadas. Dois anos atrás, o grupo já havia reestruturado R$ 4,8 bilhões numa recuperação extrajudicial, negociada fora dos tribunais com os credores.
Aquilo não foi sinal de recuperação: foi sinal de que a sangria já estava em curso fazia tempo. O que veio depois apenas confirmou o diagnóstico, e agora o valor sujeito à renegociação é mais de três vezes maior. O modelo do varejo popular brasileiro foi construído sobre duas premissas que hoje estão em xeque: o crédito barato para o consumidor de baixa renda e a inflação sob controle. Quando ambas desaparecem ao mesmo tempo, o que resta é uma clientela que compra menos, atrasa pagamentos e força as varejistas a absorverem inadimplência crescente enquanto seus próprios credores cobram juros altos.
Segundo a Serasa, 9,1 milhões de empresas estavam inadimplentes em junho deste ano, com R$ 232,9 bilhões em dívidas negativadas. É o maior número desde o início da série, em 2016. O caso Casas Bahia tem nome e logomarca conhecidos, mas não é exceção: é a ponta de um fenômeno que percorre o tecido inteiro do varejo nacional. Fato é que a combinação de juros reais elevados com endividamento estrutural das famílias cria um ciclo que se retroalimenta.
O consumidor comprometido com dívidas consome menos bens duráveis. O varejista vende menos e inadimple mais. O banco encarece o crédito para o setor. E a empresa, que esperava rolar suas dívidas aproveitando uma queda mais agressiva dos juros que nunca veio na intensidade esperada, chega ao limite. A pergunta que fica não é se outras varejistas vão seguir o mesmo caminho. A pergunta é quantas têm fôlego para resistir enquanto a taxa de juros ainda está em dois dígitos e o consumidor continua sufocado.
A resposta vai aparecer nos próximos balanços.