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Marcel Lima

O campo paga a conta de uma guerra que não é sua

19/08/2026 · 4 min de leitura
Escrito por Marcel Lima
Sócio e Assessor de investimentos da VALOR | XP. Atua com planejamento financeiro aliando a técnica aos objetivos individuais.
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Artigo em áudio · 4 min

O agronegócio brasileiro chegou a 2026 diante de uma conta que não tem como não pagar. O preço médio de importação de fertilizantes acumulou alta de 14,6% nos primeiros cinco meses do ano em relação ao mesmo período de 2025, chegando a US$ 371,9 por tonelada, segundo dados do sistema de comércio exterior. Para um setor que já vinha comprimido por juros altos e crédito caro, o choque de custo no insumo mais básico da produção agrícola é uma pressão nova sobre uma margem já apertada.

O Brasil é o maior importador mundial de fertilizantes e compra do exterior entre 85% e 88% do que utiliza. Essa dependência, construída ao longo de décadas por falta de política industrial consistente e dificuldades regulatórias, transforma qualquer instabilidade geopolítica em problema direto do produtor brasileiro. O que acontece agora no Oriente Médio é o exemplo mais claro disso. O estreito de Ormuz concentra cerca de um terço do comércio internacional de fertilizantes e mais de 40% das exportações globais de ureia, além de responder por aproximadamente metade da oferta mundial de enxofre.

A dependência brasileira dos macronutrientes é ainda mais grave do que no resto do mundo: nitrogênio chega a 90%, potássio e enxofre ultrapassam 95%. Com a rota comprometida, a conta chega rápido ao campo. O impacto mais agudo está nos fertilizantes fosfatados. O enxofre, matéria-prima essencial para a produção de fosfatados, saiu de aproximadamente US$ 100 para US$ 550 por tonelada em menos de um ano. A consequência prática já aparece na cadeia produtiva: a Mosaic anunciou a adoção de medidas temporárias de redução da produção em parte de suas operações de fosfato no Brasil devido às restrições globais no fornecimento da matéria-prima.

O Brasil importou cerca de 1,4 milhão de toneladas de fosfato monoamônico no primeiro semestre, redução de 24% em relação ao mesmo período de 2025. Menos insumo chegando significa menos adubo aplicado. E menos adubo, com o tempo, significa menor produtividade por hectare. O atraso não aparece imediatamente na colheita seguinte, mas vai se acumulando no solo e nas contas. Fato é que o produtor que reduz a dose de fósforo por pressão de custo não recupera essa perda de fertilidade no ano seguinte simplesmente porque o preço melhorou.

A situação ainda tem dois agravantes estruturais: China e Rússia restringiram suas exportações de fertilizantes para garantir abastecimento doméstico, e a expansão das baterias de veículos elétricos cria uma disputa estrutural pelos fosfatos com a agricultura, reduzindo a oferta disponível. O debate sobre produção nacional de fertilizantes volta ao centro da conversa em cada crise, mas segue sem resposta concreta. As reservas de potássio existem, em parte dentro ou próximo de terras indígenas, e o arcabouço legal torna a exploração difícil.

Planos são anunciados, retomadas são prometidas, mas a dependência estrutural permanece.

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