A Petrobras confirmou ontem a presença de petróleo no poço exploratório da Foz do Amazonas, a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá, em lâmina d'água de quase 2.900 metros. A estatal ainda precisa delimitar a descoberta e determinar quanto petróleo de fato existe na área, já que o real potencial da região segue em investigação. É uma boa notícia para o Brasil. Mas boa notícia com memória curta pode ser perigosa. O plano de negócios da companhia para o período 2026 a 2030 prevê a perfuração de 15 poços na Margem Equatorial, com investimentos estimados em US$ 2,5 bilhões na região.
São números relevantes. O problema é que o Brasil já viveu esse roteiro antes, e o desfecho não foi glorioso. A dívida bruta da Petrobras chegou ao seu maior montante em 2015, somando US$ 126,2 bilhões, após os efeitos da Operação Lava-Jato e anos de má gestão. Uma empresa que chegou à beira do colapso não por falta de petróleo, mas por excesso de interferência, preços congelados e uso da estatal como instrumento de outros interesses que não os dela.
A virada veio quando a companhia parou de tentar ser tudo ao mesmo tempo e voltou a fazer o que fazia melhor: explorar petróleo. Em junho deste ano, o Brasil bateu recorde de produção para o mês, extraindo 4,475 milhões de barris por dia, um aumento de 19,1% em comparação ao mesmo mês do ano anterior. O pré-sal, as reservas em águas ultraprofundas, já responde por mais de 80% do volume produzido. Esse resultado não surgiu do acaso.
Surgiu de uma gestão que priorizou a operação em vez da política. Faz sentido, então, olhar para a nova descoberta com entusiasmo comedido. O petróleo está lá, mas transformá-lo em riqueza real exige decisões que vão além do anúncio: licenciamento ágil e responsável, governança sólida, e clareza sobre o papel da estatal numa economia que precisa de retorno sobre investimento, não de símbolos nacionais mal administrados.
A bacia da Foz do Amazonas fica próxima a Guiana e Suriname, que juntos já somam mais de 15 bilhões de barris de petróleo descobertos (11 bilhões só na Guiana), o que atrai forte interesse exploratório na região. O entorno confirma o potencial. Mas vizinhos bem-sucedidos não garantem nada a quem não souber gerir o que encontrou. O Brasil tem hoje uma janela real. Os barris de petróleo bruto se tornaram a principal commodity vendida pelo país, tendo superado a soja em 2024 e 2025, ao gerarem mais de US$ 44 bilhões anuais em exportações.
Desperdiçar essa posição por repetir erros do passado seria um custo que nenhum anúncio, por mais simbólico que seja, conseguiria cobrir.