O Brasil entra na fase formal da disputa eleitoral de 2026 com um problema que antecede qualquer palanque: o custo do dinheiro está sufocando o setor produtivo em silêncio, e nenhum discurso de campanha vai alterar essa equação no curto prazo. Com a taxa básica de juros em 14% ao ano, mesmo após o início de um ciclo de cortes, o crédito permanece seletivo e caro o suficiente para comprometer o caixa de quem precisa rolar dívida.
Os números falam mais alto do que qualquer promessa. O Brasil encerrou 2025 com 2.466 empresas em recuperação judicial, alta de 13% sobre o ano anterior e o maior volume da série histórica. O setor agropecuário, símbolo da força exportadora do país, liderou os pedidos, com 743 companhias, equivalente a 30% do total. Não é um dado de recessão declarada. É algo mais traiçoeiro: estresse financeiro acumulado num ambiente de juros persistentemente elevados, com margens comprimidas e dívidas sendo roladas a custo cada vez maior.
O paradoxo que essa eleição carrega é este: o mercado de trabalho está aquecido, o desemprego em patamares baixos, e ainda assim a renda média não avança na velocidade que a base ocupada justificaria. Isso acontece porque emprego sem produtividade não gera prosperidade. E produtividade depende de infraestrutura, educação eficaz, crédito acessível e ambiente regulatório previsível, coisas que dificilmente ganham espaço num debate eleitoral marcado pela urgência de slogans.
Fato é que a campanha tende a circular em torno dos efeitos visíveis desse problema, como preço de alimentos, custo do financiamento, sensação de insegurança, sem tocar nas causas estruturais. Não por má-fé, mas porque o eleitor que ainda não decidiu o voto responde a sinais concretos do cotidiano, não a análises de sustentabilidade fiscal. O risco real é que a janela entre o que se promete na campanha e o que a realidade vai cobrar do vencedor seja pequena demais para acomodar surpresas.
Com juros ainda distantes de um patamar neutro e empresas continuando a rolar dívidas caras, o próximo governo, seja quem for, vai herdar uma agenda econômica que não espera. Câmbio, inflação e juro não negociam trégua eleitoral.