O movimento do Brasil de buscar novos parceiros comerciais diante das tarifas americanas é real e os números confirmam: no primeiro semestre deste ano, as exportações para os Estados Unidos recuaram aproximadamente US$ 2,6 bilhões como consequência das tarifas impostas por Washington, mas as vendas para a Europa cresceram US$ 3,1 bilhões, para a Índia subiram US$ 2,5 bilhões e para a China avançaram US$ 10,5 bilhões, numa compensação que superou em muito a perda americana.
A diversificação, pelo menos no curto prazo, está funcionando. O problema é que essa narrativa otimista convive com outra bem mais sombria, que diz respeito às contas internas. O Tesouro Nacional projeta que a dívida pública bruta chegará a 83,6% do Produto Interno Bruto no fechamento deste ano, contra uma previsão de 79,3% em 2025. Faz sentido que, com essa trajetória, qualquer sinal de ajuste fiscal vire pauta obrigatória, seja por convicção ou por pressão dos fatos.
O debate político em torno de um eventual ajuste futuro tende a se concentrar em dois alvos mais palatáveis: corte de emendas parlamentares e fim dos supersalários no funcionalismo. São anomalias reais, mas insuficientes para dobrar a curva da dívida. O que efetivamente eleva o endividamento é a dinâmica das despesas obrigatórias, que cresce em ritmo acima do limite permitido pelo arcabouço fiscal, hoje fixado em 2,5% ao ano em termos reais.
Mexer nisso exige tocar em benefícios, aposentadorias e pisos vinculados ao salário mínimo, itens que nenhuma ala do campo governista parece disposta a questionar publicamente. Há uma contradição evidente: o país consegue reagir com agilidade no plano externo, reorientando exportações em poucos meses, mas demonstra rigidez estrutural na política fiscal interna. O Tesouro avalia que a redução duradoura da relação dívida-PIB depende da continuidade de reformas estruturais, além de maior expansão do produto interno bruto, especialmente com medidas que promovam a consolidação fiscal e contenção de despesas obrigatórias permanentes.
Não é uma opinião de mercado: é o diagnóstico do próprio governo sobre si mesmo. Enquanto isso, a adesão da China à consulta aberta pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio contra o tarifaço americano tem valor político inegável, mas efeito prático limitado. O órgão de apelação da entidade está travado desde 2019, quando ficou sem o número mínimo de juízes por causa do bloqueio americano às indicações, o que significa que qualquer decisão favorável ao Brasil ficaria sem instância para ser executada.
O gesto sinaliza solidariedade multilateral, mas não resolve tarifa nenhuma. O que emerge desse cenário é um país com capacidade real de adaptar rotas comerciais, mas com dificuldade estrutural de reformar suas próprias finanças. Exportar mais para a Índia e para a China é relevante. Não é, porém, substituto para o ajuste que a trajetória da dívida exige, e que nenhum calendário eleitoral tende a tornar mais fácil de fazer.