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Marcel Lima

O voto que ainda não existe

12/08/2026 · 3 min de leitura
Escrito por Marcel Lima
Sócio e Assessor de investimentos da VALOR | XP. Atua com planejamento financeiro aliando a técnica aos objetivos individuais.
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Artigo em áudio · 3 min

A campanha eleitoral começa oficialmente esta semana, mas o dado que mais importa não está nos comícios: está nos bolsos das famílias. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, elaborada pela Confederação Nacional do Comércio, 82% das famílias brasileiras afirmaram possuir algum tipo de dívida em julho, o maior percentual registrado na série histórica do levantamento, pelo sexto mês consecutivo de alta.

Os brasileiros com dívidas destinam, em média, 29,5% da renda mensal para quitar compromissos financeiros, o que significa que quase um terço do dinheiro já tem destino definido antes mesmo das despesas básicas do mês. Esse quadro importa eleitoralmente porque o eleitorado decisivo ainda não decidiu. No cenário estimulado pela pesquisa BTG/Nexus de 10 de agosto, o atual presidente lidera com 40% das intenções de voto, contra 35% do principal adversário.

No segundo turno, a diferença cai para três pontos percentuais, dentro da margem de erro. Eleição apertada em contexto de endividamento recorde é uma combinação que tende a amplificar o peso de qualquer fator novo que apareça na reta final. A questão central não é quem lidera nas pesquisas, mas o que move quem ainda não escolheu. Uma parcela estimada em torno de 20% do eleitorado pode decidir o voto apenas nos últimos dias, segundo pesquisa da Quest.

Esse grupo, predominantemente composto por mulheres e jovens, tende a responder mais a percepções de momento do que a programas de governo. E a percepção de momento, hoje, é de um orçamento doméstico comprimido: 19% das famílias chegaram a julho com mais da metade da renda comprometida com pagamentos de dívidas, o maior patamar desde março deste ano. Há um argumento simples aqui: quando o esforço financeiro já foi feito, o renegociamento já aconteceu e a folga não apareceu, o eleitor que ainda não escolheu pode estar menos sensível a promessas e mais atento a sinais concretos do dia a dia.

Isso tende a desfavorecer quem governa, não necessariamente porque o oponente convenceu, mas porque o cansaço fala mais alto do que o discurso. Do outro lado, a capacidade de reação rápida a eventos imprevistos também pesa. Quem tem estrutura de campanha mais consolidada pode absorver um escândalo ou capitalizar uma notícia favorável com mais agilidade. Entre os eleitores do candidato que lidera, 83% afirmam que seu voto já está definido, percentual que chega a 80% entre os eleitores do principal adversário.

As bases estão firmes. O jogo se decide no meio, naquele eleitor que não se reconhece em nenhum dos dois polos mas terá de escolher um deles, ou não aparecer. É nessa fatia que a economia doméstica pode ser mais decisiva do que qualquer debate ou corte de rede social.

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