Por décadas, os Estados Unidos sustentaram uma política clara: nenhum país aliado deveria enriquecer urânio ou reprocessar plutônio sem supervisão rigorosa. Essa doutrina, consolidada depois dos testes nucleares indianos de 1974, atravessou administrações de partidos diferentes e funcionou como espinha dorsal da não proliferação nuclear no mundo ocidental. Fato é que essa lógica pode estar chegando ao fim. O acordo firmado entre Washington e Riad permite que a Arábia Saudita desenvolva um programa nuclear civil com supervisão americana, mas sem o chamado padrão ouro das inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica.
O texto ainda passa pelo Congresso, mas o sinal político já foi dado. A leitura mais imediata é geopolítica. A China mediou a reaproximação entre Arábia Saudita e Irã em 2023 e se consolidou como maior compradora do petróleo saudita. A Rússia, mesmo envolvida na guerra na Ucrânia, segue construindo infraestrutura nuclear em países como Turquia, Egito e Hungria. Diante disso, os Estados Unidos parecem ter concluído que, se alguém vai fornecer tecnologia nuclear à Arábia Saudita, é preferível que sejam eles.
Há também um componente comercial evidente. Empresas americanas participarão diretamente da construção das instalações sauditas. O setor nuclear civil dos Estados Unidos, historicamente marginalizado nas políticas de Trump, surge aqui como instrumento de política industrial e projeção de influência. O problema é o precedente. O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman já declarou publicamente que, se o Irã obtiver uma arma nuclear, a Arábia Saudita fará o mesmo.
O Irã, por sua vez, mantém hoje cerca de 441 kg de urânio enriquecido a 60%, teor sem utilidade civil conhecida. Israel observa com cautela. Outros países da região tendem a interpretar o acordo como uma abertura de caminho que também lhes pode ser acessível. Fato é que a arquitetura de contenção nuclear construída ao longo de cinquenta anos sugere ser mais frágil do que parecia. Quando o fornecedor é um adversário estratégico, os riscos parecem inaceitáveis.
Quando é o próprio hegemon, os riscos se tornam gerenciáveis, pelo menos na teoria. A prática, como a história já mostrou mais de uma vez, costuma ser mais complicada.