Existe algo revelador no fato de que a principal força organizadora da política brasileira hoje não é uma ideia, um projeto ou sequer um partido. É o medo. O eleitor que não se identifica com nenhum dos polos dominantes termina, no momento decisivo, escolhendo o candidato que representa o menor risco de ver seu adversário vencer. Vota-se contra, raramente a favor. Esse padrão não é acidental. Ele reflete um sistema que foi se redesenhando ao longo de anos para premiar a sobrevivência em vez da proposta.
O financiamento público robusto, as emendas parlamentares individuais e o esvaziamento do debate nas comissões criaram uma classe política que tem poucos incentivos para pensar o país inteiro e muitos para cuidar do próprio distrito. O resultado é um legislativo fragmentado que funciona bem para si mesmo e pouco para o conjunto da sociedade. A comunicação política acelerou esse processo. Quando o algoritmo só mostra a mensagem de um candidato para quem já o apoia, o debate deixa de existir como ferramenta de convencimento.
O político não precisa mais enfrentar o diferente, explicar uma contradição ou defender uma proposta diante de quem discorda. Precisa apenas reforçar a identidade do grupo que já o segue. Isso produz lideranças cada vez mais eficazes em mobilizar bases e cada vez menos capazes de governar para além delas. O que falta, no fundo, não é exatamente um nome novo. É um ambiente que torne viável o surgimento de forças dispostas a fazer o que costumava se chamar de concertação: sentar com quem pensa diferente, aceitar que o interesse comum às vezes contraria o interesse de grupo e construir algo que aponte para frente.
Esse tipo de movimento já aconteceu no Brasil em momentos de pressão real, quando a crise tornava o custo da omissão maior do que o custo do acordo. A dúvida é se o país precisa chegar a um ponto de ruptura fiscal ou institucional para que algo assim volte a ser possível, ou se há capacidade de antecipar esse movimento antes que a conta chegue de forma mais brutal. Por ora, os incentivos apontam na direção errada. E o eleitor, enquanto isso, continua votando com o estômago apertado.