A partir da meia-noite, o Brasil passou a figurar entre os países mais tarifados pelos Estados Unidos. Uma sobretaxa de 25% sobre parte das exportações brasileiras entrou em vigor, e há indicações de que novas tarifas, desta vez relacionadas a questões trabalhistas, podem chegar aos 12,5% adicionais nos próximos dias. O momento é delicado, e a resposta do país a esse cenário revela algo mais amplo do que uma disputa comercial.
Fato é que o Brasil colhe, em parte, o que plantou ao longo de décadas de protecionismo e economia fechada. Quando o modelo de comércio global começa a se reconfigurar, países com histórico de fechamento tendem a se tornar alvos naturais de pressões externas. Isso não exime ninguém de responsabilidades imediatas, mas ajuda a entender por que a posição brasileira é estruturalmente frágil nessa negociação. O que chama atenção, porém, é a sobreposição entre o calendário eleitoral e as decisões de política externa e econômica.
Há uma percepção disseminada, inclusive entre empresários, de que as negociações com Washington estão suspensas até outubro. A lógica é simples: tensões com potências estrangeiras podem render dividendos eleitorais internos, e resolver o problema agora retiraria esse combustível do debate público. Enquanto isso, setores produtivos pedem crédito, adiamento de impostos e, sobretudo, que o governo não acione instrumentos de retaliação que pouco resolveriam e muito poderiam piorar.
Do outro lado, a oposição também não apresenta um projeto econômico consistente. O que circula são sinalizações vagas, nomes sendo testados e promessas de ajuste fiscal sem detalhamento de quais custos políticos estariam dispostos a pagar. Fato é que qualquer agenda de consolidação fiscal exige capacidade de articulação com um Congresso que hoje opera com autonomia crescente e apetite por gastos. No plano regional, o Brasil enfrenta esse momento em meio a um continente que testa os limites da convivência democrática.
Da Nicarágua, onde um dirigente simplesmente anunciou o fim das eleições, a El Salvador, onde reformas constitucionais abriram caminho para mandatos adicionais, a centralização de poder não tem endereço ideológico fixo. O padrão que parece importar não é o de esquerda ou direita, mas o de quem aceita ou rejeita a alternância de poder. O Brasil, por ora, permanece como exceção relativa nesse mapa. Mas exceções se sustentam por escolhas, não por inércia.
E há pouca evidência, até aqui, de que as escolhas necessárias estejam sendo feitas.