O governo americano anunciou mais uma rodada de sobretaxas comerciais, atingindo dezenas de países, entre eles o Brasil. A justificativa oficial gira em torno de alegações de trabalho forçado, mas fato é que o argumento parece funcionar mais como um recurso jurídico do que como uma preocupação genuína com direitos trabalhistas. Após a Suprema Corte americana limitar os instrumentos legais usados anteriormente, a nova base regulatória oferece um caminho mais sólido para manter as barreiras de pé.
O Brasil recebe uma sobretaxa de 12,5% que se soma aos 25% já anunciados anteriormente, criando uma cumulatividade pesada sobre setores como máquinas, equipamentos, produtos químicos e calçados. Carnes, café e frutas ficaram fora da lista, em boa medida por razões de interesse do próprio mercado americano. Cerca de 2.000 produtos brasileiros também foram preservados, segundo o Ministério do Desenvolvimento. A resposta brasileira oscila entre o discurso firme e a cautela prática.
A lei de reciprocidade aprovada no Congresso existe e pode ser acionada, mas seu rito é lento, com prazos sucessivos de 30 dias. Fato é que, com eleições se aproximando, o governo tende a modular o tom sem aplicar retaliações concretas, já que qualquer tréplica americana poderia pressionar a inflação doméstica e contaminar o bolso do eleitor. No plano mais amplo, a estratégia tarifária americana pode estar gerando um efeito colateral relevante: empurrar parceiros comerciais a buscar novas alianças.
O movimento do Brasil em direção ao Sudeste Asiático e o reforço do diálogo com a China sugerem que o reordenamento das cadeias globais já começou, independentemente da intenção original de Washington. Há ainda outro front que complica o quadro. Os ataques ao tráfego marítimo no Mar Vermelho e a instabilidade nos estreitos de Ormuz e Babel Mandeb fizeram o preço do petróleo disparar mais de 7% em um único dia. O Brasil reagiu mantendo a subvenção à gasolina e o imposto de exportação sobre o petróleo, apostando que a receita extra da Petrobras pode custear parte do alívio ao consumidor.
O risco, como já se viu em outras ocasiões, é transformar o provisório em permanente. O que emerge desse cenário é uma combinação de imprevisibilidade comercial, tensão militar no Oriente Médio e pressões fiscais internas. Cada um desses vetores, isolado, seria gerenciável. Juntos, tendem a estreitar as margens de manobra de quase todos os países envolvidos, inclusive dos próprios Estados Unidos.