A crise comercial entre Brasil e Estados Unidos ganhou novos contornos esta semana, depois que Washington acusou Brasília de não ter negociado de boa fé para evitar a aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. A reação do governo foi rápida e carregada de simbolismo: ministros defenderam a soberania nacional em bloco, o Palácio do Planalto emitiu nota em tom altivo e o presidente do Banco Central foi convocado para uma coletiva pouco usual.
O problema é que o discurso patriótico, por mais que funcione eleitoralmente, não resolve a situação concreta de quem exporta. Setores como etanol, calçados, vestuário, máquinas agrícolas e plásticos estão diretamente na mira das novas tarifas. Fato é que cerca de 18% das exportações brasileiras para os americanos foram atingidas, algo em torno de 7,4 bilhões de dólares. Empresas que construíram toda a sua estratégia exportadora voltada ao mercado americano não têm para onde correr em poucos meses.
A resposta do governo, batizada com nome de apelo eleitoral evidente, prevê linhas de crédito emergenciais. Mas o acesso é burocrático, o prazo é longo e o crédito, no fim, precisa ser devolvido. Para uma empresa média que destina 70% da produção aos Estados Unidos, isso não é solução, é sobrevida. Havia, segundo relatos de quem participou das negociações pelo lado brasileiro, uma janela real de acordo. Uma concessão no etanol em troca de acesso ao mercado americano para o açúcar, por exemplo, poderia ter saído.
Não saiu. E fato é que, quando o não acordo também traz ganhos políticos, o incentivo para arriscar uma concessão diminui muito. Do lado americano, a lógica é clara: aplicar tarifa primeiro, negociar depois, com o Brasil na posição mais fraca. E a resposta viável não passa por retaliação em bloco, que tenderia a provocar reação ainda mais dura de Washington. Passa por negociação caso a caso, setor por setor, empresa por empresa.
Nas redes sociais, o governo saiu na frente. Pesquisas indicam que mais de 50% dos brasileiros concordam com a versão governista sobre o tarifaço. A oposição, fragmentada e associada a figuras que apoiaram publicamente as tarifas americanas, perdeu terreno na disputa narrativa. Mas esse cenário é volátil e, à medida que os efeitos econômicos se tornarem mais concretos na vida das pessoas, o cálculo pode mudar. O que resta evidente é que uma crise comercial dessa magnitude não deveria ser gerida pela comunicação de governo.
Ela exige técnica, foco e disposição real para ceder onde é necessário. Até agora, o que se viu foi mais performance do que negociação.