A confirmação das novas tarifas americanas sobre produtos brasileiros reacendeu um debate que vai muito além do comércio exterior. Com alíquotas que podem chegar a 25% adicionais sobre determinados setores, a medida afeta exportadores, gera incertezas nos mercados e coloca o Brasil em uma posição delicada diante da maior economia do mundo. O que chama atenção, porém, é como o tema migrou rapidamente do campo econômico para o eleitoral.
O governo brasileiro optou por uma postura discreta nas negociações ao longo dos últimos meses, o que gerou a percepção, inclusive por parte dos negociadores americanos, de falta de empenho. Enquanto países como Reino Unido, Japão e Índia avançaram em acordos ou concessões seletivas, o Brasil chegou à mesa tarde demais. Fato é que o país tinha cartas relevantes a jogar, especialmente no campo dos minerais críticos e das terras raras, ativos estratégicos que despertam grande interesse em Washington.
Uma negociação bem conduzida poderia ter resultado em benefícios mútuos, mas o momento passou sem aproveitamento. No cenário interno, o tarifaço ganhou contornos políticos evidentes. Para o governo, virou argumento de defesa da soberania nacional. Para a oposição, tornou-se um problema de narrativa, já que a proximidade com aliados americanos não se traduziu em influência real sobre a decisão da Casa Branca. Relativizar o impacto das tarifas pode ser um equívoco estratégico.
Os setores mais afetados são justamente aqueles de maior valor agregado e conteúdo tecnológico, exatamente os que o Brasil mais precisa desenvolver. Perder espaço no mercado americano não é apenas uma questão de números no PIB, é uma questão de competitividade de longo prazo. A discussão sobre retaliação também preocupa. Acionar mecanismos de reciprocidade contra uma potência, que tende a escalar conflitos comerciais, pode agravar a situação sem garantir nenhum ganho concreto para os exportadores brasileiros.
Com eleições se aproximando, o risco é que cálculos de curto prazo contaminem decisões que exigem visão estratégica. Comércio exterior não se resolve com discurso, resolve-se com negociação técnica, concessões inteligentes e clareza sobre o que o país quer e o que pode oferecer.