Enquanto o governo americano discursava ontem na Assembleia Geral das Nações Unidas ameaçando uso de força militar no continente e prometendo resolver conflitos ao redor do planeta, um número discretamente divulgado em Washington contava outra história. A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou US$ 40 trilhões em agosto, e o déficit previsto para o ano fiscal corrente já passa de US$ 2 trilhões. O título do Tesouro de 10 anos, referência global para crédito, ultrapassou 5% ao ano nesta semana, patamar que não se via desde 2007.
São números que deveriam moderar qualquer retórica imperial, mas claramente não moderaram. O problema não é só o tamanho da dívida. É o custo de carregá-la. Com juros longos acima de 5%, o serviço da dívida americana consome hoje mais recursos do que os gastos com defesa. O Tesouro americano precisa emitir mais de US$ 155 bilhões em novos títulos por mês apenas para manter o governo funcionando. Parte dessa pressão vem da guerra com o Irã, que já dura sete meses sem resolução clara, e que continua drenando recursos sem entregar o desfecho prometido nos primeiros dias do conflito.
O que isso tem a ver com o Brasil? Muito. Quando os juros longos americanos sobem, o capital global migra para ativos considerados seguros, e países emergentes pagam o preço em câmbio e em prêmio de risco. Com a taxa básica de juros brasileira ainda em patamar elevado, o custo de se financiar internamente já é alto. Se o cenário externo piorar, a pressão sobre o câmbio aumenta, a inflação importada volta ao radar, e o Banco Central se vê sem espaço para afrouxar.
O que parece ser um problema fiscal americano acaba chegando ao bolso do consumidor brasileiro sem aviso prévio. Há ainda um paradoxo geopolítico que vale registrar. A mesma potência que reivindica o papel de árbitro da ordem internacional é a que mais testa os limites dessa ordem por dentro, acumulando desequilíbrios que nenhum discurso em plenário resolve. Potências médias, do Canadá à Austrália, já perceberam isso e buscam alianças alternativas.
O Brasil, por razões próprias, segue um caminho diferente, mas a conta fiscal americana vai chegar a todos, independentemente de alinhamento.