O impasse militar americano no Oriente Médio revelou uma fragilidade que vai muito além de qualquer batalha específica: os Estados Unidos entraram num conflito sem ter estoque suficiente para sustentá-lo por mais tempo do que o esperado. Antes do início do conflito com o Irã, os EUA possuíam 2.330 mísseis de um dos mais importantes sistemas de interceptação. Em fins de julho, esse número havia caído para entre 759 e 827, segundo estimativas do CSIS baseadas em fontes do setor.
Traduzindo: foram gastos cerca de 65% do estoque, restando menos de mil interceptadores. O problema não é só quantitativo. Cada míssil desse tipo custa aproximadamente US$ 4 milhões, e o sistema foi empregado repetidamente para derrubar drones iranianos que custam entre US$ 20 mil e US$ 50 mil cada. A assimetria financeira por si só já seria constrangedora para qualquer planejador militar. O gargalo real, porém, é industrial.
Até o início de agosto, o Pentágono recebia cerca de 15 novos mísseis de cruzeiro e 20 novos mísseis do mesmo tipo por mês, ritmo que o CSIS estimou insuficiente para repor em prazo razoável o que foi consumido na guerra. Diante disso, o próprio Pentágono anunciou nos primeiros dias de agosto um plano para triplicar a produção desses interceptadores, reconhecendo que o ritmo anterior era incompatível com o consumo observado no conflito.
Ainda assim, a ampliação de capacidade industrial não é problema que se resolve com decreto ou verba aprovada no Congresso. Um míssil interceptador reúne buscador de radar ativo, motor de foguete de alto desempenho e eletrônica de precisão, cada um com cadeia de fornecedores própria, e componentes críticos têm poucos fornecedores qualificados no mundo. A resposta orçamentária proposta para enfrentar isso tende a agravar outro problema.
O governo americano propôs um orçamento militar de US$ 1,5 trilhão para o ano fiscal de 2027, o maior aumento percentual em gastos de defesa desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, o Tesouro americano já havia pago US$ 857 bilhões em juros líquidos da dívida nos primeiros nove meses do ano fiscal de 2026, ritmo de cerca de US$ 24 bilhões por semana, projeção que deve superar US$ 1 trilhão até o fechamento do ano fiscal.
Esse volume de juros já rivaliza com o orçamento atual de defesa. Gastar mais para recompor o que foi consumido na guerra aprofunda o mesmo problema fiscal que já pressiona as contas públicas. O que o conflito com o Irã expõe, portanto, não é apenas desgaste de munição. É a tensão entre a velocidade em que capacidades militares são consumidas e a lentidão estrutural com que uma economia industrial consegue recolocá-las em campo.
Essa conta tende a pesar sobre qualquer negociação que venha a ocorrer, e os adversários estratégicos dos EUA, no Oriente Médio e além, parecem estar prestando atenção nisso com interesse crescente.