A escolha do vice numa corrida presidencial raramente decide eleições por si só. No Brasil recente, os vices foram escolhidos por lógicas variadas: para acalmar o mercado, para ampliar a base no Congresso, para suavizar imagens. O anúncio de Alfredo Gaspar como companheiro de chapa da candidatura da oposição segue uma lógica diferente e mais direta: atacar onde o adversário sangra. A mais recente pesquisa BTG/Nexus, de agosto, coloca a disputa presidencial com 41% para o governo e 37% para a oposição no primeiro turno, com o candidato oposicionista avançando quatro pontos em relação à rodada anterior.
No segundo turno, a diferença cai para um único ponto percentual, dentro da margem de erro. Uma eleição tão apertada quanto essa não se vence apenas com um vice que convence, mas com um vice que desgasta. É nesse contexto que a escolha de Gaspar parece fazer sentido estratégico. Ele foi relator da CPMI do INSS, tema que concentra boa parte da vulnerabilidade do governo no debate público. A inflação do grupo "Alimentação e Bebidas" acumula alta de 4,81% nos primeiros cinco meses de 2026, com o grupo representando cerca de 19,3% do peso do IPCA, o que já pressionava o humor do eleitor.
Mas pesquisas de rejeição têm mostrado consistentemente que corrupção, não economia, é o principal motivo declarado de quem recusa votar no governo. A estratégia oposicionista aposta que manter esse tema aceso ao longo da campanha pode ser suficiente para conquistar o eleitor que rejeita ambos os lados, concentrado no Sudeste urbano. O problema é que a escolha também carrega custos evidentes. A candidatura tentou por meses atrair uma vice mulher, chegou a sondar nomes de peso e não obteve êxito junto ao centro e ao Centrão.
O movimento altista da inflação de alimentos, mais duradouro nos últimos meses, tende a pesar especialmente sobre o eleitorado feminino, que é particularmente sensível ao custo de vida. Perder esse eleitorado por um lado enquanto tenta ganhar pelo debate anticorrupção é uma aposta que pode se equilibrar ou não, a depender do que os próximos meses trouxerem de fatos novos. Há ainda o improviso visível. Um vice anunciado com menos de 24 horas de aviso, que na véspera havia sido lançado para uma vaga no Senado por outro estado, não projeta a imagem de escolha amadurecida.
Em eleições definidas na última semana, como foi em 2022, esse tipo de ruído pode ter peso marginal, mas real. Com 80% do eleitorado oposicionista afirmando voto já definido e 85% dos mais convictos dizendo que não mudarão de lado (BTG/Nexus), o espaço de disputa está nos indecisos. E para eles, segurança pública e custo de vida tendem a pesar mais do que o currículo do segundo da chapa. Gaspar pode abrir frentes de desgaste, mas dificilmente fecha sozinho a diferença que ainda existe nas pesquisas.