Há algo revelador no fato de o MDB, partido com raízes fincadas na redemocratização do Brasil, ter decidido simplesmente não disputar a eleição presidencial. Não no sentido de abrir mão de candidato próprio, o que já vinha acontecendo, mas de recusar até mesmo o gesto de escolher um lado. A neutralidade virou estratégia. E o MDB não está sozinho. Outros grandes partidos do chamado centrão caminham na mesma direção, liberando seus diretórios estaduais para se alinharem com quem for mais conveniente em cada região.
Na prática, o mesmo partido pode estar ao lado do governo em um estado e da oposição no estado vizinho, sem qualquer contradição interna, porque a lógica já não é ideológica nem sequer nacional. O motivo é simples de enunciar, embora suas consequências sejam mais profundas: eleger deputados federais, estaduais e senadores virou negócio mais lucrativo do que disputar o Palácio do Planalto. Com emendas parlamentares na casa de dezenas de milhões de reais por mandato, o Congresso se tornou o verdadeiro centro de gravidade do poder no Brasil.
Ser ministro perdeu atratividade. Integrar uma coligação presidencial perdeu sentido estratégico. Fato é que esse movimento não é irracional do ponto de vista dos atores envolvidos. É uma resposta calculada a um sistema de incentivos que foi se reconfigurando ao longo dos últimos anos. A proibição das coligações nas eleições proporcionais retirou um dos principais motivos para que partidos fechassem acordos nacionais em torno de candidatos à presidência.
O crescimento das emendas parlamentares fez o restante. O que fica, porém, é uma eleição presidencial que os grandes partidos encaram como risco a evitar, e não como oportunidade a conquistar. A disputa pelo Planalto se torna cada vez mais uma corrida de candidaturas que precisam se virar com o que têm, sem a estrutura orgânica que bancadas partidárias coesas poderiam oferecer. Isso tende a concentrar ainda mais o poder em bancadas legislativas fragmentadas, que negociam individualmente com quem ganhar, independentemente do programa ou da direção que o país venha a tomar.
O interesse nacional nesse arranjo fica difícil de identificar. O que sobra é um sistema que se auto-organiza para sobreviver e crescer, deixando a disputa de projetos de país como questão secundária.