O Brasil tem hoje cerca de 8 milhões a mais de eleitoras do que eleitores, e esse desequilíbrio numérico começa a se transformar em força política real. Pesquisadores e especialistas em comportamento eleitoral observam que, desde 2018, o país vive o que se chama de "gap de gênero moderno": homens e mulheres passaram a votar de formas cada vez mais distintas, invertendo uma tendência histórica em que as mulheres tendiam a acompanhar escolhas mais conservadoras, muitas vezes influenciadas pelo ambiente familiar.
O que explica essa virada? Em grande parte, a relação cotidiana das mulheres com os serviços públicos. São elas que, na maioria dos casos, levam filhos ao posto de saúde, acompanham a rotina escolar e dependem diretamente do transporte coletivo. Esse contato direto com o Estado transforma o voto feminino em algo mais pragmático do que ideológico. A mulher brasileira não busca necessariamente esquerda ou direita, mas propostas concretas que melhorem sua vida.
Dados recentes mostram que cerca de 32% das mulheres declaram não ter posição política definida, ante 25% dos homens, o que reforça esse distanciamento dos extremos. Outro elemento central é a rejeição ao discurso agressivo. Estudos nacionais e internacionais indicam que mulheres, independentemente de sua inclinação ideológica, afastam-se de candidatos com postura belicosa. Não se trata de fragilidade, mas de uma leitura diferente sobre o que a política deve ser.
Candidaturas que adotam tom moderado e empático tendem a ter desempenho melhor entre esse eleitorado. A representação feminina dentro dos partidos ainda é um ponto crítico. O Brasil ocupa posição constrangedora no ranking mundial de participação feminina no legislativo, com cerca de 13% de deputadas federais, enquanto a média global se aproxima de 30%. Quando mulheres chegam a cargos de poder, frequentemente enfrentam violência política de gênero vinda dos próprios pares, não do eleitorado.
Esse fenômeno atravessa todos os campos políticos e revela que o machismo na política não tem cor partidária. Para as eleições de 2026, dado o acirramento da disputa, estima-se que o resultado pode ser definido por uma fatia de 3% a 5% do eleitorado. Desse grupo, aproximadamente 69% são mulheres que já transitaram entre candidatos distintos nas últimas eleições e estão insatisfeitas com as opções atuais. Conquistar esse eleitorado exige mais do que símbolos ou gestos pontuais.
Exige escuta genuína, propostas tangíveis e uma comunicação que respeite a inteligência e a experiência de quem vive na pele os desafios do cotidiano brasileiro.