A reforma tributária saiu do papel e entrou nas notas fiscais. A partir de ontem (3 de agosto de 2026), empresas do regime regular passaram a ser obrigadas a preencher os campos de IBS e CBS nos documentos fiscais eletrônicos, com a alíquota-teste de 1% (0,1% de IBS e 0,9% de CBS). É um passo concreto, mas revela uma contradição que acompanha toda a implementação: o país começa a operar um sistema novo sem ainda saber quanto vai cobrar de verdade.
A alíquota cheia de referência, somando CBS e IBS, ainda não foi fixada oficialmente, com estimativas em torno de 26,5% a 28%. Essa faixa, por si só, já coloca o Brasil em posição delicada no cenário global. Com um IVA potencialmente acima de 26%, o país tende a figurar entre os campeões mundiais de tributação sobre consumo, o que alimenta resistências legítimas no setor privado e dá munição ao debate eleitoral que já começou a corroer a reforma antes mesmo dela funcionar plenamente.
O problema central não é a reforma em si. A lógica de substituir PIS, Cofins, ICMS e ISS por dois tributos principais, além de zerar o IPI na prática (mantido apenas de forma residual para proteger a Zona Franca de Manaus), faz sentido econômico. CBS e IBS geram crédito ao longo da cadeia, evitando que o imposto se acumule no preço final. Na prática, cada empresa paga apenas sobre o valor que realmente adiciona ao produto ou serviço.
Isso desburocratiza e, em tese, reduz o custo Brasil. O problema é que a alíquota final vai depender do tamanho das exceções. Setores com descontos de 30% a 60%, regimes especiais e isenções para itens essenciais fazem com que quem paga a alíquota cheia carregue o peso dos que ficaram de fora. Quanto mais exceções, maior a alíquota para os demais. A implementação do IVA será gradual, entre 2026 e 2033, período em que os tributos atuais serão progressivamente eliminados até que o novo sistema esteja plenamente funcional.
Uma transição de sete anos é longa, mas justificável dado o tamanho da mudança. O que não se justifica com tanta facilidade é o fato de que, já na largada operacional, ninguém consegue dizer com precisão quanto vai pagar a partir de 2027. O cronograma prevê a inclusão das notas de serviços a partir de outubro e a adaptação das empresas do Simples Nacional somente a partir de janeiro de 2027. Ou seja, a base de dados para calibrar a alíquota definitiva ainda nem está completa.
Há um custo concreto nessa incerteza que quase não aparece no debate público: o investimento das empresas para adaptar sistemas, treinar equipes e revisar processos. Esse gasto existe agora, antes de qualquer benefício de eficiência aparecer. E quanto mais o prazo se arrasta, mais caro fica o processo de transição para o setor privado. Suspender a reforma, como alguns candidatos propõem, dificilmente resolveria esse problema.
Abriria um novo ciclo de negociação setorial, com os mesmos grupos de interesse presentes, e provavelmente chegaria ao mesmo ponto de chegada: uma alíquota elevada, repleta de exceções.