A aparente transformação da América do Sul em um bloco majoritariamente governado pela direita levanta reflexões profundas sobre a verdadeira natureza das mudanças políticas na região. Se olharmos apenas para o mapa atual, com as vitórias recentes em países como a Argentina, o Chile e a recém-comprovada virada na Colômbia com a eleição de Abelardo de la Espriella, o cenário sugere uma inversão ideológica coordenada. No entanto, as aparências costumam enganar.
O verdadeiro motor por trás dessa alternância de poder não parece ser uma súbita conversão ideológica das populações a propostas pragmáticas de direita ou esquerda, mas sim uma profunda insatisfação popular. Os eleitores sul-americanos reagem de forma pragmática contra a criminalidade, a estagnação econômica e a persistente armadilha da renda média, onde promessas de crescimento nunca se realizam. Trata-se, essencialmente, de uma punição generalizada a quem está no poder.
Essa dinâmica mostra que a nova direita não terá lua de mel com o eleitorado, enfrentando o mesmo escrutínio que sepultou os governos de esquerda anteriores. Paralelamente, a crença de que governos sul-americanos alinhados ideologicamente a Washington, especialmente sob a influência de Donald Trump, garantiriam uma relação automática de privilégio com a superpotência é outra possível ilusão. A doutrina de segurança nacional da Casa Branca prioriza exclusivamente os interesses norte-americanos, enxergando a América do Sul prioritariamente como exportadora de recursos naturais e de criminalidade transnacional.
Líderes locais poderia atentar para exemplos internacionais, como o da primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, que, apesar de sua origem na direita, entrou em rota de colisão com Washington por defender os interesses de seu próprio país. No campo da segurança pública e do narcotráfico, a cooperação militar na região amazônica tende a crescer diante das novas lideranças, mas os Estados Unidos guiam suas ações por necessidades internas e geopolíticas, e não por afinidades partidárias automáticas.
Essa volatilidade política e o desgaste das lideranças tradicionais não são exclusividades latino-americanas. No Reino Unido, a recente renúncia do primeiro-ministro trabalhista Keir Starmer ilustra como grandes maiorias parlamentares podem se dissolver rapidamente diante da incapacidade de entregar resultados práticos. Starmer tornou-se o sexto chefe de governo a cair em uma década marcada pelas consequências econômicas e sociais do Brexit.
O provável sucessor, Andy Burnham, assume um país estruturalmente endividado, evidenciando que a impaciência do eleitorado e as divisões internas em democracias consolidadas criam um ciclo de instabilidade difícil de romper. Seja em Washington negociando acordos provisórios com o Irã, seja em Bogotá ou Londres, o cenário global contemporâneo pune severamente a falta de pragmatismo. No fim, as ideologias importam menos que a capacidade real de governar e responder aos anseios imediatos da população.