Em toda a América Latina, parece haver um desgaste generalizado de quem está no poder frente a demandas não atendidas de segurança pública e estabilidade econômica. O eleitorado, sufocado pela expansão do crime organizado transnacional e pela perda do poder de compra, pune o governante de turno, alternando matizes partidárias sem que isso signifique uma mudança estrutural na governança. A mais duradoura e resistente dessas ondas na região parece ser o populismo, manifestado nas mais diversas cores.
Há cerca de quatro décadas a América Latina vivencia uma persistente estagnação da produtividade e um crescimento econômico medíocre quando comparado ao dinamismo de outras regiões do globo, como o Sudeste Asiático. Enquanto nações asiáticas criaram ondas de progresso tecnológico sustentável e se transformaram em centros industriais robustos por meio de investimentos massivos em educação e infraestrutura, as economias latino-americanas viciaram-se nos ciclos de alta das commodities.
O resultado é a herança de voos de galinha e o equívoco crônico de supor que a mera troca da coloração ideológica do palácio presidencial resolverá problemas estruturais profundos. No Brasil, esse cenário se traduz no tensionamento constante entre o empenho fiscal e o apelo eleitoral. O lançamento de programas de renegociação de dívidas e a ampliação de benefícios para microempreendedores expõem o desafio de conciliar estímulos econômicos com o equilíbrio das contas públicas, especialmente em períodos que antecedem pleitos municipais ou nacionais.
Enquanto o governo federal desenha mecanismos que por vezes contornam as regras fiscais estritas para alavancar a aprovação popular, o Congresso Nacional responde na mesma moeda, pautando bondades que expandem despesas primárias e criam as chamadas meias entradas fiscais. Essa dinâmica gera uma distorção perigosa, na qual o Estado cresce em ritmo veloz e incompatível com a riqueza gerada pelo setor privado, que de fato sustenta a economia.
Paralelamente, a busca por espelhos internacionais mantém a política externa como refém das disputas internas. Lideranças buscam palcos externos para acenar às suas bases ideológicas, idealizando alianças que negligenciam a tradição diplomática de priorizar o pragmatismo e o interesse de Estado. Fragmentar as relações entre vizinhos estratégicos e líderes do Mercosul em nome de simpatias partidárias debilita a inserção global do bloco e sabota a cooperação comercial indispensável.
Se a governança não se desvencilhar do manual puramente identitário e focar no aumento real da produtividade, a América Latina continuará presa ao movimento pendular de suas ondas, assistindo ao progresso consolidar-se do outro lado do mundo enquanto flerta com o eterno voo de galinha.